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    Inicialmente devemos estabelecer a premissa de que todo profissional da área de Ciência deve possuir um referencial que lhe garanta respaldo no trato das questões relativas a seu campo de atuação, ou seja, precisa eleger um modelo interpretativo de sistema que lhe permita estabelecer um protocolo de ação. Alguém já disse que "Deus perdoa; o ser humano, às vezes, porém a Natureza nunca o faz", e esta consciência nos aconselha a adotar aquele referencial que a Natureza desenvolveu ao criar um sistema que chega à senilidade íntegro e operacional, motivando-nos, portanto, a adotá-lo como paradigma, ou "Modelo Padrão", fruto de leis naturais cujo Autor é o Criador! E como é possível identificá-lo? Ora, o pesquisador arguto vive pela fé na cadeia de causas e efeitos, porque tem convicção de que todo efeito tem uma causa que pode ser evidenciada por meio de métodos racionais.

    Foi por intermédio das pesquisas de vários autores, destacando-se Gysi, Hanau, Thielemann, Beyron, Dawson, Ramfjord, Planas e tantos outros que contribuíram, cada qual com seu quinhão, para consolidar as bases científicas que permitiram identificar o equilíbrio do sistema tendo seus componentes analisados e correlacionados, criando a chave para a compreensão da auto-sustentabilidade funcional, objetivo de toda especialidade. Tais pesquisadores foram coligindo e interpretando os fenômenos naturais e fazendo suas ilações, transpondo-as em leis. Ninguém inventa uma lei natural, apenas observa os fenômenos, interpreta-os e os traduz. Diferente da "lei" do homem, criada segundo visão pessoal, quiçá por conveniência, e por isso mutável ao sabor do momento. É oportuno parafrasear Juvenal, quando estabelece que "Nunca a Natureza diz uma coisa, e a Sabedoria diz outra". Nada mais natural, portanto, que elegê-la como fiadora do "Modelo Padrão", onde não existe margem para ambiguidades.
    Este modelo foi definido magistralmente por Pedro Planas em sua Reabilitação Neuro Oclusal (RNO), pelo próprio autor definida como não sendo Ortodontia, Ortopedia Funcional dos Maxilares ou qualquer outra especialidade, pois não admite limitações. Portanto, é este modelo de interpretação de um sistema estomatognático íntegro e com seus constituintes sinergicamente equilibrados que tornou-se o "Objetivo Definido" de toda minha terapêutica, permitindo-me lançar mão dos meios estratégicos eleitos como os mais eficazes para atingi-lo, lembrando que a Ciência, que jamais foi estática, oferece-nos incontáveis caminhos que são descobertos à medida que vamos aprendendo e evoluindo. A finalidade, conclui-se de maneira cartesiana, é "cumprir as leis de equilíbrio". Minha casuística clínica, toda ela construída na obediência a este princípio, constitui-se no aval para este posicionamento. 
Passemos agora a considerações mais detalhadas a respeito deste Modelo Padrão que tornou-se meu paradigma para finalização terapêutica.
    Tal como no funcionamento de qualquer máquina, todo trabalho, ou função, deve ser exercido de maneira que haja um mínimo de dispêndio energético para executá-lo, e com baixa entropia (medida da quantidade de desordem em um sistema). Ora, um sistema é constituído por partes interativas cujas ações coordenadas objetivam um fim determinado, e no caso do sistema estomatognático (entre outras correlações com os sistemas respiratório, digestório e postural) a finalidade é "mastigar". Este ato, para ser concretizado idealmente, deve estar de acordo com o projeto articular, ou seja, bilateralmente. Há exigências claras para que tal aconteça, pois nada é arbitrário ou aleatório. Já dizia Einstein de que "God doesn´t play dices with the Universe" (Deus não joga dados com o Universo). Este equilíbrio obedece a leis que assentam que o Plano Oclusal deste sistema seja formado em consonância às Trajetórias Condilares, ou seja, uma mínima variação nestas provoca imediato reflexo naquele quando dos movimentos excêntricos, constituindo-se na "Primeira Lei de Hanau". Para a "Segunda Lei", os dentes guardam, com suas Alturas Cuspídeas, uma relação mútua com a Curva de Decolagem, ou seja, a uma maior altura de cúspide resulta uma curva mais ascendente; e a Trajetória dos Incisivos, ou sobressaliência e sobremordida, são consequentes às Alturas Cuspídeas e Trajetórias Condilares, constituindo a "Terceira Lei" do equilíbrio oclusal de Hanau, com todo esse sinergismo sendo regido pelo equilíbrio nos Ângulos Funcionais Mastigatórios Planas, ou AFMPs. Primeiro para entender, e depois para respeitar e aplicar estas leis, recorre-se aos registros funcionais analisados no articulador semiajustável, que é o meio adequado para isto. Os casos clínicos devem ser finalizados com respeito a este paradigma baseado em leis naturais, e a este resultado chegamos pelo emprego do acervo disponível de conhecimentos técnicos que o permitem, gerando um "síntese terapêutica". Alcançaremos, com essa orientação, a excelência na finalização do tratamento com equilíbrio autossustentável. Assentadas essas premissas, passemos a abordar as características gerais e abrangência de Ortodontia e Ortopedia Funcional dos Maxilares.
    A moderna ORTODONTIA exige que seus especialistas estejam atualizados em conhecimentos relativos aos modelos interpretativos mecanicista da Ortodontia e funcionalista da Ortopedia Funcional dos Maxilares, tal. Ora, é corrente o pensamento que o propósito, tanto de um modelo quanto de outro, seja de prestarem-se à tarefa de alinhamento e nivelamento dos dentes, dispondo-os idealmente segundo angulações, torques, profundidade, contatos proximais, rotações, chaves e planos oclusais, ou seja, duas técnicas aparentemente divergentes perseguindo um mesmo objetivo. Possivelmente o conhecimento fragmentado de um dos modelos, ou de ambos, justifique este ponto de vista, porém, a análise sucinta que farei procurará deter-se nas diferenças e demonstrar que, longe de colocá-los em campos antagônicos, pelo contrário, os fará convergir, quando então se completam.
    Previamente há que estabelecer parâmetros para estruturar um padrão de comparações e se chegar às conclusões. O primeiro deles refere-se a definir objetivos de ambos os modelos: a cura do desvio no padrão de normalidade funcional de um sistema; o segundo está relacionado à consciência do quê estamos tratando; e o segundo, aos mecanismos disponíveis para tanto, ou seja, o tripé de sustentação para um enfoque terapêutico adequado.
O modelo mecanicista da Ortodontia está fortemente vinculado à percepção dos fenômenos voltados às leis da Física, e tal como acontece com o conteúdo de um software, o conjunto de princípios e suas ilações restringe o trânsito apenas dentro de seus limites, e cujo alcance e abrangência torna-o insubstituível em uma área de atuação que exige alta precisão e controle de forças nas suas ações e reações no sistema alvéolo-dentário.
    O modelo terapêutico empregado na aparatologia fixa eleita em minha filosofia de trabalho apóia-se em três grandes princípios, todos eles amplamente estruturados em conceitos solidamente testados e convertidos em protocolos específicos. O primeiro deles é representado pelo Straight Wire, ou Arco Reto, cujas fases de tratamento são dispostas em sequências objetivas e altamente eficazes. A facilidade com que lida com os diferentes tipos de ancoragem e com o alinhamento e nivelamentos dentários empregando bráquetes com quádruplo controle, como angulação, torque, rotação e profundidade embutidos no corpo, bem como fios de última geração, superelásticos com propriedades austenítica e martensítica, temoativados em vários níveis e de tensão seletiva em segmentos do arco, torna essa técnica atraente e útil na execução de grande número de casos. O seguinte consiste na filosofia e respectiva Mecânica Bioprogressiva, desenvolvida por Ricketts, que se constitui inegavelmente em um dos mais avançados meios de atuação terapêutica, tanto na fase de dentição permanente quanto transicional, fato permitido pelo emprego de fios duplos, como os segmentados e altamente eficientes Arcos-Base, ou Utilidade, em suas inúmeras variações. Seu enfoque de ação seletiva em campos específicos das arcadas dentárias, que podem ser abordados de maneira independente e subordinados a uma estratégia terapêutica progressiva, aliado a um inestimável instrumento de avaliação prévia de resultados, no que vem a se constituir o VTO (visualização dos objetivos terapêuticos) torna suprema esta técnica na arte ortodôntica, dotando o profissional que a domina de grande versatilidade. E o terceiro princípio refere-se à técnica que mais de perto defronta o ortodontista àquela ciência que lhe dá suporte, a Física, que se constitui na Mecânica dos Arcos Segmentados, idealizada por Burstone, em que a fiação ortodôntica é executada segundo princípios que permitem antever com segurança os resultados e prever com clareza as indefectíveis sequelas ou consequências, anulando-as quando convier ou delas tirando proveito, pois tanto na Ortodontia quanto na Física, não há força impune, pois sabemos que a toda ação corresponde uma reação igual, de mesma direção e sentido contrário, como ensina a terceira Lei de Newton. De posse desses instrumentos, não há o que possa se constituir em problema de resolução dento-alveolar, e mesmo alguns casos esqueletais selecionados, excetuando-se obviamente as displasias ósseas exacerbadas que exigem o concurso da Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial. Porém, há o perigo de que esses conhecimentos gerem um esvaziamento no espaço reservado ao estudo do sistema biológico e suas interações.
     O modelo funcionalista da Ortopedia Funcional dos Maxilares, por outro lado, busca na imersão interpretativa dos fenômenos biológicos a resposta aos seus questionamentos, pois pertencem a outra categoria de necessidades. Como busca a compreensão do "ser" vivo e seus intercâmbio com o ambiente, individualiza o sistema estomatognático como um sistema aberto, porém, de controle fechado, como explica a Teoria Geral dos Sistemas, área do conhecimento que se ocupa dos sistemas de controle das máquinas e seres vivos, pois submetem-se a mecanismos regulatórios de princípios comuns.
     Não basta aceitar a idéia de que os modelos terapêuticos devam coexistir, felizmente uma obviedade nos meios lúcidos atuais. É preciso mais. É necessário conhecer de fato, e clinicamente, o universo dessa coexistência, que é muitíssimo mais amplo do que possa supor uma visão de amador. Sim, há que amadurecer. Com rápidas pinceladas, precisamos saber que a ação terapêutica dos aparelhos ortopédicos funcionais vai atuar em áreas específicas em que apenas eles têm trânsito, e portanto, ter consciência de quais áreas estamos nos referindo.
    Para ser considerado como integrante do grande acervo da aparatologia ortopédica funcional, o dispositivo deverá ser solto na cavidade oral, ter apoio bimaxilar, induzir estímulos intermitentes e produzir mudança de postura terapêutica mandibular, ou seja, a ação funcionalista induz respostas indiretas e intermitentes, sendo tão mais efetiva quanto maior for a permissibilidade autorreguladora do sistema, pois este está permanentemente regulado pela homeostase, como resposta às aferência informativas. Em outras palavras,os estímulos gerados pela aparatologia vêm, de certa forma, desequilibrar o sistema de forças presentes fazendo com que este desenvolva um conjunto de respostas, ou eferências reequilibradoras, com a finalidade de adaptação às novas solicitações, em grande parte dependente do biotipo.
     Estas intercomunicações entre o ser e o ambiente, ou sistema estomatognático/aparelho, acontecem via canal específico, o analisador, compreendido por um sensor, ou receptor, cuja função é captar e proceder à transdução das informações, ou estímulos, em sinais elétricos conduzidos pelo condutor, ou neurônio aferente, às terminações nervosas corticais que vão decodificá-las. As vias de aporte das informações dependem da área de recepção, assim as externas são representadas pelos exteroceptores, as do meio interno ou sistema vegetativo pelos interoceptores e os da vida de relação pelos proprioceptores. Uma vez elaborada a resposta, ou eferência dirigida ao órgão efetor, que tanto pode ser uma contração ou estiramento muscular acionado pela placa motora, ou então um estímulo humoral para gerar uma secreção, esta alteração no meio promove uma resposta para sinalizar se a troca de informações criou um estado propício à consecução de determinada tarefa ou não, isto é, uma avaliação do mecanismo homeostático representado pela aferência de retorno, uma retroalimentação ou feedback, que corporifica um sistema de regulação do tipo fechado, que explica os mecanismos adaptativos de uma respiração bucal, por exemplo, consequência de uma estenose maxilo/mandibular acompanhada por um desequilíbrio sagital de bases ósseas, com diminuição do espaço orofaríngeo gerando compensação postural crânio-cervical. São exatamente as aferências de retorno que acionam os mecanismos efetores compensatórios, entrelaçando o sistema estomatognático ao respiratório, muscular, articular, digestório e postural. E é no conhecimento e possibilidade de atuação em arborização sistêmica mais ampla que reside o diferencial dos modelos terapêuticos em pauta. Podemos sintetizar que a Ortodontia tem seu campo de ação no binômio dento-alveolar, e as técnicas ortopédicas funcionais no músculo-esqueletal, e estamos convictos de que uma abordagem só será completa quando houver consciência do comprometimento entre ambos os modelos, que não são excludentes, mas convergentes em uma síntese dialética que os explica e sanciona. 
     Há que estudar profundamente tais modelos e tomar consciência da riqueza que tal somatória de conhecimentos permite e ao mesmo tempo pairar acima de discussões frívolas. O catalisador para a comunhão destes princípios é representado na figura do Educador, pois sob sua responsabilidade está a de apontar caminhos dando suporte a uma visão crítica diferenciada e estimular pesquisas, pois é dentro da inquietação pelo saber que dogmas são derrubados e barreiras virtuais transpostas. Àqueles que se dispuserem a ampliar o leque de informações, acena-se com a liberdade de exercer o poder de opção, daí emergindo o especialista completo.

    Toda definição deve encerrar elementos explicativos claros e precisos, devendo-se evitar a generalidade.  É habitual relacionar a oclusão ideal à relação dentária interarcos, com inclinações  e angulações coronárias adequadas, ausência de rotações, contatos interproximais justos e uma curva de Spee suave, que fazem parte dos objetivos de harmonia e saúde dentofacial  propostos por Andrews, consubstanciando as suas seis chaves de oclusão.  De fato são atributos desejáveis, porém, limitados.  Afirmo isso por um motivo até trivial: referem-se exclusivamente a uma oclusão estática, quando o que é relevante refere-se à função, que pressupõe movimento, trabalho, ação.
       A especialidade odontológica que mais deveria conhecer “oclusão”, sem dúvida, é a da Ortodontia.  Porque é ela que  detém a competência de movimentar dentes, e ao fazê-lo, cumprir determinações específicas que regem o equilíbrio do sistema dento-ósseo-músculo-articular.  E quais são os requisitos que predispõe à harmonia, equilíbrio e, acima de tudo, estabilidade oclusal? A resposta está assentada naqueles pilares da odontologia, reside nas proposições de Thielemann, Hanau, Gysi, Beyron, Planas e tantos outros, e clássicos por que são escudados na Ciência. Permito-me repetir o que já anteriormente escrevi: “Precisamos calcar nossa ação no conhecimento científico, que em sua estruturação necessita de Organização, Objetivo próprio e Metodologia específica.  A razão disso advém da própria definição do que se concebe como Ciência: um conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente possuir um objetivo próprio, assim como definir suas bases tendo em vista uma metodologia específica. Em decorrência, ela vai distinguir-se do conhecimento vulgar, porque procura pôr ordem nas coisas, classificando-as, e, além disso, tem a preocupação de procurar uma resposta pela análise das leis que as regem.  Tendo-se conhecimento das leis naturais, a ciência desempenha duas funções: primeiro, teórica, que nos explica e liberta do imprevisto e ininteligível; e depois, uma função prática, porque permite-nos prever os fenômenos pelo conhecimento das leis”.
       Ora, já Thielemann e Planas nos alertava para a necessidade de perfeito sinergismo de ação entre os componentes ativos  do sistema estomatognático, que para exercer uma ação equilibrada, deveria obedecer a uma equação que teria no numerador a angulação da trajetória condilar e grau de sobressaliência e sobremordida, e no denominador, as alturas cuspídeas, inclinação do plano oclusal e curva de Spee.  Para a manutenção do equilíbrio, aumento ou diminuição no numerador deveria ser acompanhado por ação similar no denominador.  Hanau estabeleceu sua primeira Lei, quando relacionou o grau de inclinação condilar como determinante da forma e situação do plano oclusal, intimamente interdependentes, sendo este formado em função daquele; em sua segunda Lei refere-se à relação entre as alturas cuspídeas e o grau da curva de Spee, ou de decolagem, sendo esta função daquela; e a terceira Lei que relaciona a trajetória incisiva, em seu aspecto de sobremordida e sobressaliência, à altura cuspídea e trajetória condílea. Como se vê, todos estes aspectos abordados referem-se a MOVIMENTO, FUNÇÃO.  Nada estático!
      A Reabilitação Neuro Oclusal, de Pedro Planas, congrega, e agrega, a todas estas Leis aquilo que, de fato, define com todas as letras o que deve ser atingido para que a oclusão seja funcional e estável: o Ângulo Funcional Mastigatório equilibrado, como corolário definitivo às Leis de Equilíbrio.  É a ação harmônica, são os contatos dentários precisos em cêntrica e movimentos excêntricos coordenados à ação muscular que vêm a permitir a tão almejada estabilidade pós-tratamento.  Fora disto, é iatrogenia pura, é necessidade de contenção.
      O presente caso clínico mostra o resultado final equilibrado segundo todos os requisitos mencionados e subscritos pela Reabilitação Neuro Oclusal . Por exemplo, o movimento para mastigar do lado direito produz um estímulo lateroprotrusivo, com forças centrífugas na hemimaxila deste lado e na hemimandíbula do lado de balanceio, ao lado de forças centrípetas na hemimaxila de balanceio e hemimandíbula de trabalho, com isto mantendo os respectivos perímetros. Quando a mastigação processa-se do lado oposto, o mesmo esquema de forças estará presente, tornando este ato  uma fonte fisiológica natural e constante de forças que se combinam para estabelecer o equilíbrio mastigatório.
       Em definitivo deve ser enfatizado que, o ortodontista que se propuser a exercer a especialidade de forma consciente e segura, precisa conhecer em profundidade o tema “oclusão”.  Deve ter no articulador seu instrumento indispensável de aprendizado e treinamento, não apenas para conscientização das leis de equilíbrio, mas de treinamento para um outro requisito absolutamente indispensável:  o AJUSTE OCLUSAL  em cêntrica e nos movimentos excêntricos.  Somente desta forma pode ser atingido aquele patamar de finalização que é uma verdadeira grife do profissional que tem na Reabilitação Neuro Oclusal seu paradigma terapêutico.

    Como já tivemos oportunidade de mencionar, uma das maiores lacunas infelizmente ainda presente é o desconhecimento das transformações absolutamente normais que vão se manifestando na boca no transcurso do tempo, graças a uma função equilibrada e a um desgaste fisiológico.  Prova disso é a existência de uma quantidade de teorias estereotipadas, como por exemplo, as  do guia canino, oclusão de grupo, cúspide e fossa, cêntrica longa, tripóide, perda de contato em balanceio, etc., todas elas gerando grande confusão no principiante e especialista avançado; mas ainda pior são as conseqüências funestas que esta confusão acarreta para o sistema estomatognático.
      Nossa teoria, baseada em conceitos que a razão odontológica permite, é de que a natureza  nos dota de um sistema estomatognático apto a exercer o primeiro ato digestivo da alimentação: “a mastigação”.  Esta é a principal função do dito sistema, que supõe corte, apreensão, trituração, moagem e salivação dos alimentos para sua posterior deglutição. Para tanto emprega um complexo mecanismo cuja excitação funcional permite que mantenha sua vitalidade de maneira permanente.
     Esta excitação provém: a) dos movimentos póstero-anteriores das ATMs, proporcionado pelos músculos pterigóideos, masseteres e temporais, e b) dos tecidos periodontais de todos os dentes através dos contatos oclusais.
    Para que haja esta excitação é necessário que todos os dentes inferiores contatem contra todos os superiores nos movimentos de lateralidade mandibular, à esquerda e à direita, que devem ser realizados para que esta tenha condições de exercer a função de moer.  E isto tanto do lado de trabalho quanto de balanceio através dos contatos entre cúspides, vertentes e sulcos, todos eles “maravilhosamente dispostos pela natureza em formas arredondadas no momento de erupcionar,  para que nelas possam ser gravadas pelo contato de pontos que logo se transformam em facetas com planos de deslizamento”.
    O movimento exclusivo de abertura e fechamento, ou movimento de Walker, não é um movimento funcional, pois é empregado apenas para bocejar, cantar ou posicionar-se para o dentista.  Apenas pode ser considerado funcional o movimento de abertura necessário para introduzir os alimentos na boca.
    Como já dissemos anteriormente, não há dúvida que, para se realizar bom diagnóstico de uma lesão no sistema estomatognático, devemos conhecer exatamente qual deveria ser sua forma e função no estado normal e fisiológico em um momento determinado do desenvolvimento.
    Durante os 20 anos que temos nos dedicado à docência, temos podido nos dar conta de como é difícil  ensinar este conceito de normalidade e equilíbrio, e para tanto, temos nos valido de exemplos, comparações e exercícios práticos.  Se, por exemplo, a uma pessoa que pretende intitular-se “relojoeiro”  entregarmos em uma pequena caixa todas as peças de um relógio  desmontado e solicitarmos que faça a montagem, certamente juntará as peças e o montará.  Se o relógio montado vier a funcionar perfeitamente, poderemos confirmar sua capacidade para proclamar-se relojoeiro.  Todavia, se depois da operação de montagem o relógio não funcionar, este senhor poderá ser um bom vendedor de relógios, porém nunca um técnico em relógios.
    Este mesmo exemplo, aplicado à estomatologia, podemos repetir entregando a um profissional um articulador semi-ajustável e um jogo de dentes anatômicos para que monte uma dentadura de maneira equilibrada. Resolve-se este desafio montando uma dentadura em que a mandíbula se desloque para ambos os lados mantendo o contato de todos os dentes inferiores contra os superiores (exceto o canino inferior do lado de balanceio) durante toda a extensão desses movimentos de lateralidade. Esta manobra indica que aquele que a executa conhece e tem consciência do conceito de forma e função que configura  um sistema equilibrado, com todos os devidos contatos em trabalho e balanceio presentes em todas as peças dentárias, sabendo saberá alterá-las ou modificá-las se forem modificadas as trajetórias condilares.  Quando isto acontece, há a necessidade de uma série de ajustes para recuperar o equilíbrio perdido, adequando as posições dentárias à nova angulação. Se não souber resolver este problema e somente conseguir arranjar os dentes  em oclusão cêntrica mais ou menos estética, pode ser julgado apenas como um bom vendedor , porém nunca um profissional com o preparo necessário, pois desconhece em absoluto o conceito de normalidade, e quando se deparar com uma patologia, quando muito fará por transformá-la em outra.  E esta normalidade não se aprende somente com teoria, senão na prática.

Ao se realizar o exercício de montagem de prótese total em um articulador semi-ajustável, constata-se a indiscutível importância das Leis de Hanau na estruturação do equilíbrio oclusal.
    Os fatores que regulam esta lei são os seguintes:

    1 – Trajetória condílea
    2 – Situação ou inclinação do plano oclusal
    3 – Altura cuspídea
    4 – Curva de decolagem do plano oclusal
    5 – Ressalte ou overjet  dos incisivos (não suas inclinações axiais)

Segundo o professor Thielemann, o equilíbrio é regido pela seguinte fórmula:

1o x 5o  /  2o x 4o x 3o  = equilíbrio

   Ou seja, se aumenta o valor de um fator no numerador, deve-se diminuir o outro fator deste numerador.  Se aumenta o valor de um fator do denominador, deve-se diminuir o valor de outro ou outros fatores do denominador.  Se aumenta ou diminui algum fator do numerador, deve-se aumentar ou diminuir igualmente algum fator do denominador, a fim de que o equilíbrio seja mantido.
    É oportuno esclarecer, pois nunca será demais, alguns aspectos destas leis admitidas por quase todos os profissionais, porém compreendidas por muito poucos.
    A trajetória condílea é a trajetória percorrida pelo côndilo em seu movimento de trás para frente e abaixo; mede-se com a horizontal do plano de Frankfurt e oscila ao redor de uns 30o.

O plano oclusal é, em geral, virtual, pois não se pode tocá-lo, mas apenas imaginar onde está situado, especialmente em bocas com dentição recente e com todas suas cúspides intactas.  É um plano virtual, que partindo do bordo incisal dos incisivos dirige-se sempre para trás e para cima, fazendo com o plano de Frankfurt um ângulo de aproximadamente 15o. Tal plano, idealmente paralelo ao plano de Camper (espinha nasal anterior/pório) somente será real quando a criança estiver com todos os dentes decíduos com suas cúspides  desgastadas a zero, ou seja, quando as duas arcada apresentarem-se como as formas de duas ferraduras que se justapõem em qualquer posição de lateralidade ou protrusão.  Este é o verdadeiro plano oclusal posicionado em função das trajetórias condíleas.
    Uma vez erupcionada a segunda dentição, ele passa novamente a virtual, pois se estabelece o que denominamos de “curva de decolagem”, em função das alturas cuspídeas, só voltando a ser real quando todos os dentes apresentarem suas cúspides aplainadas por desgaste natural, e que voltem a coincidir como duas ferraduras que contatam em qualquer posição lateral ou protrusiva.
    A curva de decolagem se estabelece por um afastamento progressivo do setor posterior em relação àquele plano oclusivo original paralelo a Camper, desde  caninos até  molares e em função das alturas cuspídeas.  Tal curva recebe este nome porque se assemelha à decolagem de um avião em relação à pista, e transforma-se em plano oclusal no momento em que se tenham desgastado totalmente as cúspides e os incisivos estiverem contatando-se em oclusão de topo.
    Conferimos a estas leis de Hanau, responsáveis pelo equilíbrio oclusal, a seguinte interpretação: o indivíduo possui trajetórias condilares peculiares, nas quais não podemos interferir, e que são responsáveis pela individualização do plano oclusal, também chamado de plano de Camper, por ser a este paralelo quando dentro da normalidade. A mínima variação destas trajetórias induzirão à adaptação do plano oclusal a esta nova posição, caso contrário estará configurado o desequilíbrio.
    Esta é a primeira Lei de Hanau, na qual manejamos os fatores 1o e 2o (trajetória condilar e forma ou situação do plano oclusal). Existe, ademais, o fator 3o, ou seja, a altura cuspídea, que  em função de sua altura, estabelece a curva de decolagem, ou seja, o fator 4o. A uma maior altura cuspídea corresponderá maior curva de decolagem. Com altura cuspídea igual a zero, desaparece a curva de decolagem e coincide com o plano oclusal. Esta é a segunda Lei da Hanau, na qual manejamos os fatores 3o e 4o (altura cuspídea e curva de decolagem).
    Por último, o ressalte e sobremordida dos incisivos estão em função das alturas cuspídeas e das trajetórias condíleas.  A maiores alturas cuspídeas e trajetória condílea, maiores serão a sobremordida e o ressalte (overbite e overjet).  Com altura cuspídea igual a zero, os incisivos ocluirão topo a topo, ou seja, à medida que desaparece a altura cuspídea, também desaparecem a sobremordida e o ressalte.  Esta é a terceira Lei de Hanau.
   Como toda nossa filosofia de reabilitação neuro-oclusal fundamenta-se em manter permanentemente o equilíbrio funcional oclusal, é de primordial importância para exercitá-la conhecer a fundo estas leis, não de memória, mas praticamente.
   Nós instruímos nossos alunos a montar uma dentadura completa e equilibrada em um articulador semi-ajustável com trajetórias condíleas a 15o.  Uma vez terminado este exercício, alteramos as trajetórias para 40o , desarticulando com isso todo trabalho feito. Desta forma, compreendem que  devem ajustar novamente as posições e contatos dentários à nova situação, convencendo-se que devem obediência às leis de Hanau, caso objetivem alcançar o equilíbrio do sistema.
   Ou assumem vender relógios que não funcionam!

    A compreensão da dinâmica das forças oclusais é imprescindível para o ortodontista que se preocupa com  suas conquistas  terapêuticas após a retirada da aparatologia corretiva, quando os dentes, ora livres, vêem-se submetidos a uma realidade biológica que  exige uma interpretação precisa dos mecanismos de absorção das forças desenvolvidas pelo sistema muscular  e sua dissipação nos contatos dentários, os quais, se adequados, irão proporcionar a almejada estabilidade oclusal, fruto de uma relação intermaxilar fisiológica que tem precedência sobre a oclusão. A busca deste equilíbrio fundamenta-se na evidência de que no confronto entre o sistema ósteo-neuro-muscular e os dentes, estes sempre têm que assumir um efeito compensatório, quase sempre deletério, como hipermobilidades, desgastes excessivos, fraturas ou migrações e por vezes desconfortáveis algias.
    O sistema mastigatório, como sistema biológico, está submetido a várias influências, que podem ser referidas como as de adaptação e compensação. Condições locais e capacidade adaptativa formam um binômio que vai traduzir-se por um estado de equilíbrio fisiológico.  Alterações inerentes podem induzir a uma diminuição na capacidade adaptativa, quando então o sistema se desequilibra, configurando aquele quadro  chamado de descompensação ou adaptação regressiva de nível ósseo, estando o problema  de recidiva diretamente relacionado.  Por tal motivo preconizamos o  procedimento ora exposto, porque visa permitir condições predisponentes a uma auto-adaptação fisiológica, através de compensações induzidas na morfologia oclusal, evitando a todo custo a artificialidade da contenção, que impõe um sistema cujos vetores de força de equilíbrio  não se sustentam de maneira espontânea, só postergando a conseqüente e inevitável seqüela adaptativa.
    Ajustar em cêntrica significa aprimorar a oclusão em relação cêntrica (RC), que pode ser definida como sendo uma relação maxilo-mandibular em que o conjunto cabeça da mandíbula (segundo nova nomenclatura, mas que por comodidade continuamos a denominar côndilo) e respectivo disco articular estão alinhados adequadamente na posição mais superior e anterior contra o declive posterior da eminência articular, independentemente da dimensão vertical ou posição dentária.  É, pois uma definição relativa ao posicionamento condilar, nada relativo aos dentes, pois um indivíduo pode estar em RC mesmo sendo um edêntulo total.  Com o disco perfeitamente alinhado e sem qualquer anomalia músculo-ligamentar, os côndilos estarão automaticamente em RC e todo o conjunto autocentrado na fossa mandibular. Qualquer deslocamento do disco é conseqüência de ligamentos danificados por alguma influência de descoordenação muscular.
    Ao analisarmos a forma da fossa articular (e ou mandibular), notaremos que ela apresenta a forma de um triângulo com seu vértice voltado para a na porção medial, e o pólo medial do côndilo com o disco interposto assenta-se perfeitamente no pólo medial desta fossa.  Nesta posição, pela própria anatomia da região,  o côndilo não pode deslocar-se quer no sentido sagital quer transversal, limitado que está pelas paredes ósseas, podendo tão somente rotacionar em seu eixo terminal de rotação, interposto entre os dois pólos mediais da fossa mandibular.

    Toda definição deve encerrar elementos explicativos claros e precisos, devendo-se evitar a generalidade. É habitual relacionar a oclusão ideal à relação dentária interarcos, com inclinações e angulações coronárias adequadas, ausência de rotações, contatos interproximais justos e uma curva de Spee suave, que fazem parte dos objetivos de harmonia e saúde dentofacial propostos por Andrews, consubstanciando as suas seis chaves de oclusão. De fato são atributos desejáveis, porém, limitados. Afirmo isso por um motivo até trivial: referem-se exclusivamente a uma oclusão estática, quando o que é relevante refere-se à função, que pressupõe movimento, trabalho, ação.

    A especialidade odontológica que mais deveria conhecer “oclusão”, sem dúvida, é a da Ortodontia. Porque é ela que detém a competência de movimentar dentes, e ao fazê-lo, cumprir determinações específicas que regem o equilíbrio do sistema dento-ósseo-músculo-articular. E quais são os requisitos que predispõe à harmonia, equilíbrio e, acima de tudo, estabilidade oclusal? A resposta está assentada naqueles pilares da odontologia, reside nas proposições de Thielemann, Hanau, Gysi, Beyron, Planas e tantos outros, e clássicos por que são escudados na Ciência. Permito-me repetir o que já anteriormente escrevi: “Precisamos calcar nossa ação no conhecimento científico, que em sua estruturação necessita de Organização, Objetivo próprio e Metodologia específica. A razão disso advém da própria definição do que se concebe como Ciência: um conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente possuir um objetivo próprio, assim como definir suas bases tendo em vista uma metodologia específica. Em decorrência, ela vai distinguir-se do conhecimento vulgar, porque procura pôr ordem nas coisas, classificando-as, e, além disso, tem a preocupação de procurar uma resposta pela análise das leis que as regem. Tendo-se conhecimento das leis naturais, a ciência desempenha duas funções: primeiro, teórica, que nos explica e liberta do imprevisto e ininteligível; e depois, uma função prática, porque permite-nos prever os fenômenos pelo conhecimento das leis”.

    Ora, já Thielemann e Planas nos alertava para a necessidade de perfeito sinergismo de ação entre os componentes ativos do sistema estomatognático, que para exercer uma ação equilibrada, deveria obedecer a uma equação que teria no numerador a angulação da trajetória condilar e grau de sobressaliência e sobremordida, e no denominador, as alturas cuspídeas, inclinação do plano oclusal e curva de Spee. Para a manutenção do equilíbrio, aumento ou diminuição no numerador deveria ser acompanhado por ação similar no denominador. Hanau estabeleceu sua primeira Lei, quando relacionou o grau de inclinação condilar como determinante da forma e situação do plano oclusal, intimamente interdependentes, sendo este formado em função daquele; em sua segunda Lei refere-se à relação entre as alturas cuspídeas e o grau da curva de Spee, ou de decolagem, sendo esta função daquela; e a terceira Lei que relaciona a trajetória incisiva, em seu aspecto de sobremordida e sobressaliência, à altura cuspídea e trajetória condílea. Como se vê, todos estes aspectos abordados referem-se a MOVIMENTO, FUNÇÃO. Nada estático!

    A Reabilitação Neuro Oclusal, de Pedro Planas, congrega, e agrega, a todas estas Leis aquilo que, de fato, define com todas as letras o que deve ser atingido para que a oclusão seja funcional e estável: o Ângulo Funcional Mastigatório equilibrado, como corolário definitivo às Leis de Equilíbrio. É a ação harmônica, são os contatos dentários precisos em cêntrica e movimentos excêntricos coordenados à ação muscular que vêm a permitir a tão almejada estabilidade pós-tratamento. Fora disto, é iatrogenia pura, é necessidade de contenção.

    O presente caso clínico mostra o resultado final equilibrado segundo todos os requisitos mencionados e subscritos pela Reabilitação Neuro Oclusal . Por exemplo, o movimento para mastigar do lado direito produz um estímulo lateroprotrusivo, com forças centrífugas na hemimaxila deste lado e na hemimandíbula do lado de balanceio, ao lado de forças centrípetas na hemimaxila de balanceio e hemimandíbula de trabalho, com isto mantendo os respectivos perímetros. Quando a mastigação processa-se do lado oposto, o mesmo esquema de forças estará presente, tornando este ato uma fonte fisiológica natural e constante de forças que se combinam para estabelecer o equilíbrio mastigatório.

    Em definitivo deve ser enfatizado que, o ortodontista que se propuser a exercer a especialidade de forma consciente e segura, precisa conhecer em profundidade o tema “oclusão”.  Deve ter no articulador seu instrumento indispensável de aprendizado e treinamento, não apenas para conscientização das leis de equilíbrio, mas de treinamento para um outro requisito absolutamente indispensável:  o AJUSTE OCLUSAL  em cêntrica e nos movimentos excêntricos.  Somente desta forma pode ser atingido aquele patamar de finalização que é uma verdadeira grife do profissional que tem na Reabilitação Neuro Oclusal seu paradigma terapêutico.

BALANCEADAS BILATERAL